Albergue: Outro Capítulo

Pois é! Diz o ditado popular: “Tudo o que é demais enjoa”. Até nas escrituras sagradas está escrito: “A moderação em tudo é boa” – Eclesiastes, cap. 5

Porém no albergue parece que não é assim. E a janta, hein? Nos primeiros dias foi tudo maravilhoso, até suco tomamos. Hoje, nos servem uma comida fria, sem tempero e sem sal. Os pratos, já prontos, chegam a ficar gelados após algum tempo, mas são servidos assim mesmo. Outra coisa: até as 21h, é possível comer carne, depois disso…

Daí eu te pergunto: o que está acontecendo? Há poucos dias, era possível se comer uma boa comida! Será que existe algum órgão que possa nos ajudar a elucidar esse caso de “relaxo” com a população de rua? Até quando teremos que conviver com isso?
 
Funcionários do albergue reclamam do trabalho e da maneira como são tratados, não só pelos usuários, mas pelas condições de trabalho. 
 
Eu só gostaria de saber quem é que está levando vantagem nisso tudo. Para que um se dê bem é preciso que 350 pessoas sejam prejudicadas? Pedimos que nossas “autoridades” se manifestem porque a FAS diz que o albergue não é seu, mas está levando a culpa porque ele fica dentro das suas dependências. Enquanto essas questões não se resolvem, a população de rua é que sofre. Se você acha que isso é demais, então leia as questões levantadas por uma funcionária do albergue.

Vilmar Rodrigues

Funcionária revela precariedades no albergue

Segundo relatos de uma funcionária da Fundação de Ação Social, algumas situações estão precárias no albergue. A mulher, que preferiu não se identificar, conta que os funcionários estão trabalhando com pouco Equipamento de Proteção Individual de higiene (segundo ela, cada funcionário tem apenas uma máscara descartável, um par de luvas e uma toca descartável para trabalhar durante as 12h), mesmo com o local apresentando risco de contaminação.

Ela também revela que a comida chega preparada no albergue por volta das 17h30, e, como o aparelho de Buffet que mantinha a comida aquecida está estragado, as refeições que são servidas às 21h já estão frias. Segundo ela, também não é incomum que a comida fique até as 03h dentro de cubas e acabe estragando. Conta ainda que demorou cerca de cinco meses para que a máquina de esterilizar louça, que antes estava estragada, fosse reparada. E, agora que voltou a funcionar, estão sem o produto necessário para usá-la.

De acordo com seu depoimento, os funcionários também não recebem auxílio-refeição e acabam tendo de comer as refeições servidas para os usuários. Em razão disso, algumas vezes, a comida acaba antes do previsto, e os funcionários são insultados por usuários que chegam alterados e ficam sem uma refeição.

Ela pede melhores condições em seu serviço e deseja que algumas coisas sejam melhoradas no albergue. Relatamos isso pois sabemos que a FAS deseja melhorar as condições das pessoas em situação de rua e trazemos essas questões à tona para que a Fundação verifique os fatos e tome as providências necessárias.

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Um pouco de papo cabeça

Eu gostaria que todos ouvissem o que tenho para dizer, olhassem para aquilo que quero mostrar. Por que será que, às vezes, é muito mais fácil se chocar com uma cena na TV do que com o testemunho de uma sobrevivente que está bem na sua frente?!

Como é difícil para nós não podermos, às vezes, contar com as armas que nos foram colocadas à disposição. Às vezes, somos um pouco de cada super-herói. As diversas histórias são apenas o nosso dia-a-dia, que nem sempre termina bem, não é mesmo? Sou um pouco de cada um dos moradores de rua de Curitiba, cada dia com as minhas inconstâncias e altos e baixos. Quando estou no alto, tento levantar alguns dos meus irmãos, mas, quando estou por baixo, sempre aparece um para “salvar”.

Outro dia ouvi alguém dizer: “O inverno vai ser rigoroso, esse ano começou cedo”. O sobrevivente da rua passa frio todo dia, o ano inteiro. Precisamos fazer alguma coisa!

Qualquer coisa que seja nova e venha revolucionar o dia-a-dia, construindo uma revolução não só social, mas também individual. Afinal, nós não temos um valor de tabelas pelo simples fato de todos terem acesso a nós, para assim contribuírem com o que quiserem ou com aquilo que puderem. Nós também contribuímos para que algumas “entidades” possam subir no ibope, ou algumas pessoas sejam promovidas. Afinal, catástrofe, não só ambiental, gera sempre lucro para alguém.

Não estou afirmando, certamente que não, que somos o que de pior possa existir. Mas o que seria do sistema se não tivesse algo ou alguém para alimentá-lo? Precisamos mudar isso! Temos de fazer com que o que nos é de direito venha para nossas mãos.

Pessoas dedicadas a uma única causa são um pouco loucas. Mas tome cuidado! Muitos têm a impressão de que são loucos e são apenas cabeças-tontas.

Há pessoas em nosso meio que sofrem de uma espécie de bom senso rasteiro, e só descobrem tarde demais que as únicas coisas de que não nos arrependemos são nossos erros. Afinal, não há nada que seja mais assustador do que a ignorância em ação.

Eu me contento apenas em ter um coração feliz que não se esquece dos verdadeiros amigos. Mas continuo querendo meus direitos.

Vilmar Rodrigues