Das ruas para a faculdade


Jovem que morou nas ruas da cidade está terminando ensino superior e planeja lançar um livro

Talvez muitos estudantes da PUC de Curitiba nem saibam, mas um jovem batalhador que estuda no 3º ano de Serviço Social já morou nas ruas da cidade. Joarez Soares, de 28 anos, é natural de Pato Branco e veio para Curitiba ainda menino. Órfão de pai e mãe, o rapaz passou pro três instituições sociais, mas não se adaptou em nenhuma delas.

Fugindo dos maus tratos de um pai social, Joarez, na época com 16 anos, foi parar nas ruas da cidade. Ali permaneceu durante 6 anos, onde passou frio, fome, medo e todas as demais dificuldades de quem não tem um teto para dormir. “Na primeira noite na rua, fui abordado por um policial que apontou a arma nas minhas costas e perguntou se não tinha medo de morrer”, conta. Trabalhou cuidando de carros para poder sobreviver. Com o dinheiro, comprava alimentos e sustentava o vício da bebida – este, desenvolvido na rua. “Na hora da fome, tem que ter alguma coisa”, explica Joarez.

O jovem viu a oportunidade de sair das ruas da cidade quando, em um dia tipicamente chuvoso de Curitiba, foi surpreendido pelo gesto de uma mulher. Pedindo dinheiro no semáforo, Joarez abordou uma assistente social, que em vez de dinheiro, ofereceu ao rapaz uma oportunidade de futuro. “Ela disse que não me daria comida nem bebida, mas me daria a oportunidade pra estudar e me recuperar em um clínica”, diz. Dalí, Joarez foi para uma casa de recuperação, onde se livrou de seu vício. “A mulher me deixou na clínica e disse: a oportunidade é agora”, conta o jovem.

De lá, o rapaz foi para um lar voltado para as pessoas em situação de rua, a Comunidade Beato Sarnelli. Ali terminou os estudos, e decidiu prestar vestibular para a Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC). Passou com glória. Ficou entre os 15 primeiros colocados para o Curso de Serviço Social. Atualmente, Joarez está no penúltimo ano de faculdade, e já pensa em fazer seu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) com a temática das pessoas em situação de rua. Ele ainda recebe bolsa da universidade, para fazer pesquisas. Além disso, trabalha no Instituto Paranaense de Cegos.

Ele conta que no seu curso, todos sabem que já morou na rua. “Fui bem franco no dia em que uma menina chegou e disse que toda pessoa em situação de rua é bandido. Eu falei: ‘não gostei da sua afirmação, porque nem todo mundo é bandido, e prova disso sou eu, que estou na faculdade”, conta. Joarez ainda revela que conquistou o respeito de seus colegas, e hoje é representante da turma. E mesmo que o preconceito ainda exista, as pessoas admiram sua trajetória. “Algumas pessoas me tratam meio estranho, mas muitos, por saberem que eu sou um ex-morador de rua, já me respeitam mais”, analisa.

O rapaz ainda quer retratar sua vida em um livro. Está escrevendo “Nas sombras da sociedade”, e conta toda sua trajetória de rua na figura do personagem João. O livro não tem data para ser lançado, e Joarez espera encontrar uma editora que o publique. “No livro vão ter momentos alegres, outros tristes, que me fazem chorar”, revela.

Ele também pretende trabalhar com a população de rua. Sua experiência pode servir de motivação para outras pessoas. Para Joarez, sair da rua é um processo que demanda desejo e oportunidade. “Como dizem, querer não é poder”, fala. Mas logo continua. “Quantas vezes a oportunidade tá na nossa frente e a gente não agarra? A minha oportunidade veio de uma
assistente social”, completa.

Joarez agarrou a oportunidade, e foi surpreendido pelo rumo que sua vida chegou a tomar. “Nunca pensei que ia fazer uma faculdade”, fala. E se ele se arrepende disso? Jamais! “Valeu a pena! Se estou aqui, é porque alguém gosta muito de mim”, acredita.

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